Marcou na folhinha o dezenove de novembro. Tinha algo na aliteração da data que lembrava os lábios dela ao cantar Non, Je ne regrette rien. Uma qualidade poética quase tangível. Um quê de arbitrariedade, de controle sobre o destino.
Quando ela se foi, ficaram o apê recém-montado, os canários e uma quantidade obscena de amor. Ficou também uma dor profunda, a primeira das duas que enfrentaria. Era o coração empurrando o peito pra fora, o tumtum constante, único som a povoar seu mundo. Sentia-se o último falante de um dialeto póstumo, formado de estalidos de língua, adjetivos e flamingos. Era o guardião de um segredo que não se podia contar: só saber.
Mas a dor cedeu. Veio a outra, menos intensa e menos constante, dor de sapato apertado. Mas era a pior. Era a calmaria. Ficar quase bem. Era a presença constante, a olhar-lhe o coração de soslaio, disfarçadamente, com um leve piscar do olho esquerdo. Era o oceano sem ondas, sem vento, sem chuva. Era o deserto do sentir.
Na primeira vez em que ouviu-a cantando Piaff, sentiu uma urgência dos arrepios. Quis que a vida passasse, instantânea, para saborear a nostalgia de um passado feliz. Mas não queria que os lábios parassem de se mover, não quis que os sons parassem de envolvê-lo, inquietando o coração, silenciando a ansiedade. Era muito cedo para admitir, mas no primeiro olhar já soube tê-la encontrado.
Amou-a como antigamente.
No dia do primeiro beijo, caía granizo e ela se emocionou. Era tanta novidade que ela apertou o pedacinho de sonho na mão para que ele não fosse embora. Mas o estado das coisas é mudar de estado, e a lembrança escorreu por entre o mindinho e seu vizinho.
Na primeira…
Quando davam as mãos, a vida revelava segredos. O tempo caminhava mais lento, a Terra girava em adagio. Sabia: sem ela não havia Carnaval.
Ela gostava dos canários. Quem comprou foi ele: um pedido de desculpas pela discussão sobre os bilhetes de metrô. Ela dizia que eles representavam a esperança, que mesmo presos encontravam sobre o que cantar – a imaginação a sobrevoar os campos de lírios impressos nos genes ancestrais. Para ele, eram o despertador matutino, mau humor de dormir de menos. Para ela, eram fuga da tormentosa intensidade. Ela era tudo demais, tudo até o fim. Tudo. Mas quando o canário assobiava, a vida se calava. Eram canários de paz.
Mas paz ele não encontrava. Se antes lia, cochilava, trabalhava ou vivia à espera do sorriso que incendiaria o coração apartado, agora não havia distração que o fizesse esquecer que ao fim era apenas o fim. Lembrava dos sorrisos que ela tinha escondido pela cidade, os beijos que ela camuflara nos elevadores, nas praças, nas calçadas, no museu. Era ela sempre ali, caminhando ao seu lado. Sempre. Sua ausência sempre ali.
No dezenove, colocou uma nova agulha na antiga vitrola e o álbum favorito para tocar. Alimentou os pássaros e esperou a noite se aninhar à sua volta. Quis o destino que não houvesse lua, só o céu rosado das luzes da cidade. Na penumbra, tateou pela pequena luminária e preparou três pequenos montes: um azul, um vermelho e um verde. Cada cor era um sentimento, mas nenhum deles carregava nome. Eram apenas azuis, vermelhos e verdes.
Depois da primeira pílula, tomou um pouco do Carménère, que guardara por anos à espera de uma ocasião. Ouviu o canário a cantar seu blues preferido. A vitrola a chilrear ao longe. Pensou em rezar, mas percebeu que a oração já o acompanhava. Comungou o momento. Um a um foi sorvendo os goles do vinho, os goles da vida. Era tudo pausado, rítmico, costurando cada passo – passos de uma dança nova, instintiva. Veio a sensação cálida. Todo o mundo calou-se e, na quietude, viu uma vez mais o amor inteiro, puro, sem mágoas. Sentia-se diferente, mas ainda sentia o mesmo. Foi perdendo a consciência, misturando sonho e despertar. Notou a taça caída, a mancha viva no tapete branco e pensou um último pensamento furtivo: ela se irritaria ao vê-lo arruinado. Escapou-lhe um sorriso e dormiu.
No outro dia, ela abriu a porta com a chave que nunca deixara de ser sua. Foi ouvir o murmúrio da fechadura sobre o silêncio do momento e entender o irrevogável. Soube, naquele instante, algo que nunca mais a abandonaria: de todos os fins, só esse era livre de qualquer argumentação. Rendeu-lhe uma difícil lágrima e olhou uma vez mais o bilhete que fora entregue em sua casa. No papel, nem palavra, nem mágoa, nada. Só os traços trêmulos de uma gaiola aberta.
