No dia em que passou a mão no rosto e sentiu a penugem se formando, decidiu. Deixou crescer; a barba, o bigode. E por duas semanas elaborou os pêlos, todas as manhãs conferindo o comprimento, imaginando-se a enrolar os fios à Hercule Poirot. Sonhava, desde aquela idade em que a voz falseava, em envergar um belo bigode. Mas entre o sonho e a vida, havia uma enorme distância. Descobrir-se, de repente, capaz deu-lhe uma sensação inchada de poder.

Dia a dia, crescia a barba, avolumando o rosto e dando-lhe uma expressão de cansaço constante. Queria de uma vez, queria o impacto. Não estava atrás de uma solução passiva, de sentir o pêlo crescer devagar degarinho. Se ia fazer, ia ser uma de vez, sem enrolação. Foi na noite de lua nova que deu de cara com um homem diferente, um rosto cheio de sombras e insinuações. Mal-dormiu. Nascido o sol, levantou excitado, tirou uma lâmina nova da caixinha e besuntou-se com a espuma de barbear. Milimetricamente, vagarosamente, meticulosamente iniciou os cortes. Precisos. Na pia, a mistura preto-e-branca que a lâmina deixava cada vez que a torneira era aberta. Tão concentrado estava, sequer percebeu seu rosto se modificando, perdendo, corte a corte, a ingenuidade.  Quando terminou, admirou o novo ser; o antigo a escorrer pelo ralo.

Saiu para o mundo, sorriu a esmo. Sobre o sorriso um chapéu e nos olhos um certo ar perverso. Pervertido. Logo veio o primeiro olhar furtivo. Acusador. Cada folículo piloso era razão de mil acusações, como se a presença do bigode fosse uma atrocidade. Uma contravenção social, a negar cada uma das regras implícitas da sociedade vigente. Havia rasgado, com a simples ausência de barba, cavanhaque ou suíças conjugadas, o próprio contrato social, reservando-se, então, apenas o direito de ser marginal, rejeitado – um pária. Um bigodudo.

O bigode – prova, crime e pena – começou a causar-lhe problemas. De início, sutil. O troco sempre conferido, a bolsa puxada junto ao corpo. Então veio o primeiro insulto, gratuito, por não dar o lugar no metrô – mas era um lugar comum, nem não era o assento especial, reservado, que alguém estava ocupando arbitrariamente. Virou alvo. Definhou.

Indagou-se mesmo, no espelho, se valia o sacrifício por um sonho adolescente. A resposta, como é dessas coisas, estava nos próprios pêlos que tremelicavam ao vento. Decidiu aceitar a sorte e, instantâneo!, respirou leve, etéreo, compreendendo: estava em outro tempo. Era um ser d’antanho, não se enquadrava. Trazia desconfiança em cada uma das palavra pronunciadas, acentuadas pelo maldito sobre os lábios. Alguém que não possuía a decência de respeitar seus pares (que pares?) e ia, iconoclasta, contra tudo, contra o mundo. Assumiu, portanto, seu posto fora da sociedade, da vida. Ninguém esperava nada dele – para quê esse peso?

Era livre.