Começou uma simples torre, que envolveu-se de castelo e fosso. E da decisão de um deus, uma princesa cresceu prisioneira, a observar seus súditos granulares do topo do imenso prédio. No costume dos reinos antigos, esperava os dias passarem à espera de um salvador encantado. Logo estrearam, sob seu inocente olhar, tabernas, ferreiros, estabulos e uma casa de bruxa à beira do nebuloso lago. À ausência de dragões e cavaleiros, os séculos acumularam-se no fosso do castelo, que logo passou a viver não da riqueza dourada, mas da história empoeirada.

O tempo crescia e trazia consigo progresso em forma de arranha-céus reluzentes. As carroças ganharam motores e breve o trânsito se arrastava, acumulando nas ruas estreitas carros de madeira, plástico e alumínio quente. Vez ou outra, tempestades, furacões, avalanches e terremotos levavam ao chão altos prédios, testemunhas do descuido de deuses que desconhecem o próprio poder.

Embora o tempo caminhasse por inércia, arrastando estradas de terra e telhados de palha, havia ainda o pasto, vivo, vibrante, salpicado de vacas e cavalos e ovelhas. E ali, a vida escorria leitosa, como o sol de meio-dia a atravessar o céu de verão.

Implacável, a cidade engolia parques, rios, florestas e logo chegou ao mar, para onde não mais podia avançar. E, no oposto, ainda o campo, separado por dias, horas, minutos, e agora tão próximo que já se contava a distância em metros. A cidade se insinuava por sobre os celeiros e campos dourados, enquanto eqüinos relichavam, caprinos baliam e mugiam bovinos desafiando as espelhadas torres. No alto, as divindades discutiam o curso que desta vez tomaria a história do mundo.

Mas o tempo finalmente enrolou-se sobre o próprio eixo, samambaia crescendo ao inverso: da folha ao embrião. Veio o mar, destinando a cada um seu futuro, avançando sobre ruas e prédios e casas e estradas e campos e celeiros e vacas e o que enfim restou foi areia; úmida; quente; inerte.

E da longa brincadeira, cansaram-se os deuses: tornaram-se crianças a construir castelos à beira-mar.